Num artigo publicado no Público, Isabel Stilwell relata a indignação que sentiu ao ser informada de que não poderia entrar na Sé Catedral de Silves com os ombros e os joelhos descobertos. A partir desse episódio, constrói uma acusação ampla contra aquilo a que chama «a ala mais conservadora da Igreja Católica», chegando a estabelecer uma proximidade ideológica entre essa parte da Igreja e o radicalismo islâmico. A comparação é desproporcionada, injusta e intelectualmente frágil. Pedir uma determinada forma de apresentação num templo católico não equivale a impor o véu integral, a restringir a liberdade das mulheres ou a defender um modelo teocrático de sociedade. Entre solicitar que alguém cubra os ombros para entrar numa igreja e obrigar uma mulher a ocultar o rosto em todos os espaços públicos existe uma distância tão evidente que só um artigo sensacionalista poderia fingir não a reconhecer.
«Eu não podia entrar»
A autora começa por afirmar que lhe disseram que «não podia entrar». Mas, pelo seu próprio relato, podia entrar. Não podia entrar vestida exactamente como estava. Penso que a distinção não é irrelevante. Não lhe foi recusado o acesso por ser mulher, por não ser católica, pelas suas convicções políticas ou pela sua condição social. Foi-lhe pedido que adaptasse o vestuário ao lugar que desejava visitar. A própria funcionária procurou soluções: sugeriu-lhe que cobrisse os ombros e disponibilizou uma peça para colocar à cintura. Pode discutir-se a forma como a orientação foi comunicada, o grau de rigidez com que foi executada ou a qualidade do texto apresentado aos visitantes. O que não parece sério é transformar uma regra de vestuário numa expulsão discriminatória.
A vida social está cheia de códigos, explícitos ou implícitos. Adaptamos o vestuário para entrar num restaurante, num tribunal, numa cerimónia académica, numa recepção oficial ou num funeral. Não consideramos essas adaptações uma agressão à liberdade individual. Reconhecemos que os lugares, os acontecimentos e as relações possuem uma linguagem própria. Num templo, essa linguagem chama-se reverência.
A tolerância que só funciona num sentido
Há ainda uma contradição evidente no artigo. Em nome da tolerância, a autora exige que uma comunidade religiosa abdique das suas próprias normas para acomodar a vontade de quem a visita. A Igreja deve tolerar a roupa escolhida pelo visitante, mas o visitante não tem de tolerar as orientações da Igreja. A liberdade religiosa não consiste apenas em permitir que cada pessoa acredite intimamente no que quiser. Inclui o direito de uma comunidade organizar a sua vida, o seu culto e os espaços que lhe estão confiados de acordo com a sua identidade, desde que respeite a lei e a dignidade humana.
É particularmente curioso que alguém que se posiciona exteriormente em relação à Igreja pretenda determinar quais das suas regras são legítimas e quais representam um «retrocesso civilizacional». Ao longo do texto, a autora nunca fala da Igreja como sua comunidade. Refere-se sempre à Igreja como uma realidade alheia, observada e julgada de fora. Isso não a impede de opinar. Impede, porém, que apresente as suas preferências pessoais como se fossem a interpretação autêntica do catolicismo.
O argumento parece ser este: quando a Igreja não aplica as suas orientações, está a ser sensata e acolhedora; quando as aplica, passa a integrar a «ala conservadora». A fidelidade torna-se extremismo, enquanto o incumprimento é elevado a virtude pastoral. É uma lógica arbitrária: as regras religiosas só são aceitáveis quando não produzem consequências práticas.
Um monumento nacional não deixa de ser uma igreja
A autora recorda que a Sé de Silves é monumento nacional desde 1922, como se essa classificação transformasse automaticamente o edifício num museu secular. Não transforma.
A Sé de Silves é um monumento nacional afecto ao culto católico. O seu valor histórico, artístico e patrimonial não elimina a sua finalidade religiosa. O visitante não entra apenas num edifício antigo: entra numa igreja paroquial, num lugar de celebração, oração e presença sacramental.
Uma igreja pode ser visitada por pessoas de todas as crenças ou sem qualquer crença. Essa abertura não exige, porém, que deixe de ser igreja para se tornar um espaço neutro. O acolhimento do visitante não implica a suspensão da identidade do lugar. Também não é convincente apresentar a estação do ano como argumento decisivo. Sim, Silves fica no Algarve e o episódio ocorreu em Julho. Mas o calor não torna indistintos uma praia, uma esplanada, um funeral e uma catedral.
Se uma pessoa fosse às exéquias da própria mãe ou de um filho durante o mês de Agosto, consideraria adequado apresentar-se exactamente como se estivesse a caminho da praia? A temperatura seria a mesma. O significado do lugar e do acontecimento seria radicalmente diferente. Ora, uma sociedade que já não consegue distinguir o vestuário adequado a cada circunstância não é necessariamente mais livre ou civilizada. Pode apenas ter perdido a capacidade de reconhecer que nem todos os espaços existem para satisfazer imediatamente as preferências individuais.
O tom de troça não substitui um argumento
Expressões como «pecaminosas omoplatas», «ofensiva carne» ou a referência a um Deus que não seria «um tarado que anda a medir o respeito em centímetros» não contribuem para esclarecer a questão. Servem para ridicularizar antecipadamente qualquer preocupação cristã com o pudor. A linguagem da autora é reveladora, porque em vez de discutir seriamente se as regras eram proporcionais, claras e pastoralmente aplicadas, a 'lesada' caricatura a posição contrária. Quem defende algum critério de vestuário deixa de ser apenas uma pessoa com uma compreensão diferente do espaço sagrado e passa a ser apresentado como alguém obcecado pelo corpo feminino.
Pode haver excessos de zelo. Pode haver formulações infelizes, traduções inadequadas ou critérios demasiado minuciosos. Nada disso autoriza a concluir que qualquer apelo à modéstia é doentio ou que o pudor constitui uma forma de opressão.
O Deus que acolhe também transforma
A autora contrapõe às regras da Sé o «meu Deus», que seria «um Deus que acolhe». Um cristão não tem dificuldade em afirmar que Deus acolhe. O Evangelho é, em grande medida, a história de um Deus que procura, recebe, perdoa e restaura. Mas o Deus cristão não acolhe para deixar tudo exactamente como estava. Jesus acolhe Zaqueu, mas esse encontro altera a sua relação com os bens e com as pessoas que prejudicou. Acolhe a mulher acusada de adultério, mas diz-lhe que não volte a pecar. Chama os discípulos como são, mas convida-os a converterem-se, a aprenderem e a seguir um caminho novo.
O acolhimento cristão não significa a confirmação automática de todas as escolhas individuais. É uma hospitalidade que reconhece a dignidade da pessoa e, precisamente por isso, acredita que ela pode crescer, mudar e tornar-se melhor. Por isso, usar o acolhimento como argumento contra qualquer exigência, regra ou apelo à conversão é reduzir a mensagem cristã a uma aprovação sem conteúdo.
O Catecismo não fala apenas do número 1387
A autora acusa o responsável pela Sé de citar indevidamente o número 1387 do Catecismo da Igreja Católica, observando que esse parágrafo se refere à atitude corporal e ao traje de quem se prepara para receber a Eucaristia. É verdade que o texto não estabelece uma lista concreta de peças permitidas ou proibidas. Não fala de centímetros, tipos de calções ou modelos de blusas. Contudo, daí não se conclui que o Catecismo seja indiferente ao vestuário, ao pudor ou à modéstia.
Nos números 2521 a 2526, o Catecismo apresenta o pudor como parte integrante da temperança. Afirma que ele «preserva a intimidade da pessoa», «orienta os olhares e as atitudes em conformidade com a dignidade das pessoas» e «inspira a escolha do vestuário». Acrescenta ainda que as formas concretas do pudor variam entre culturas, mas que permanece a percepção de uma dignidade espiritual própria do ser humano.
Pegando nesta última observação, vê-se que a Igreja não define um uniforme universal para todos os povos, épocas e circunstâncias. Reconhece uma necessária diversidade cultural. Mas não conclui daí que qualquer vestuário seja adequado a qualquer lugar. O Catecismo também critica a exploração exibicionista do corpo, o erotismo difuso e uma concepção da liberdade desligada de qualquer educação moral. A liberdade cristã não é a capacidade de fazer tudo sem critérios; é uma liberdade formada pela verdade, pelo respeito e pela dignidade da pessoa.
Sim, pode discutir-se se a orientação concreta da Sé de Silves interpretou correctamente estes princípios. O que não pode afirmar-se é que a Igreja não possui uma doutrina sobre o pudor ou que a simples tentativa de a aplicar constitui uma invenção da chamada «ala conservadora».
A indignação e as suas proporções
A autora descreve um «estado de choque» seguido de uma «torrente de indignação» que ainda não lhe teria passado. A intensidade da reacção levanta uma questão de proporcionalidade. Vivemos num mundo em que mulheres são perseguidas, mutiladas, traficadas, obrigadas a casar, privadas de educação, exploradas sexualmente e assassinadas. Existem regimes que lhes negam direitos básicos e sociedades em que o corpo feminino é simultaneamente ocultado pela força ou exposto comercialmente para gerar lucro. Perante essas realidades, comparar o pedido para cobrir os ombros e os joelhos num espaço de culto com a imposição da burqa não ajuda as mulheres submetidas a verdadeira violência. Pelo contrário, banaliza a sua situação.
Nem toda a contrariedade é opressão. Nem toda a regra é violência. Nem todo o desconforto constitui uma violação de direitos humanos. Acredito que uma sociedade emocionalmente equilibrada deveria ser capaz de distinguir entre um pedido discutível, uma actuação excessivamente zelosa e uma verdadeira agressão à liberdade e à dignidade.
Quando os «extremos» só existem de um lado
No final do artigo, Isabel Stilwell declara que «os extremos tocam-se» e apresenta sectores da Igreja Católica como aliados ideológicos dos muçulmanos radicais. A tese só se sustenta através de uma comparação superficial: ambos falariam de modéstia no vestuário. Pelo mesmo critério, qualquer sociedade que exija traje adequado num tribunal estaria próxima de um regime fundamentalista; qualquer escola com regras de vestuário seria uma estrutura repressiva; qualquer família que ensine os filhos a vestir-se de forma diferente para uma praia e para uma cerimónia estaria a preparar o regresso da burqa.
Ideologias não se tornam equivalentes apenas porque partilham uma norma isolada. É necessário analisar a sua fundamentação, alcance, coercividade e visão da pessoa. Por outras palavras, uma orientação limitada ao interior de um espaço religioso, comunicada à entrada e acompanhada da possibilidade de adaptação não é equivalente à imposição estatal de um vestuário, à vigilância moral permanente ou à punição de mulheres por mostrarem o rosto. Esta comparação não ilumina coisa alguma, mas apenas ofende.
A dificuldade de aceitar limites
Penso que este episódio apenas revela uma tensão mais ampla. A cultura contemporânea fala muito de diversidade, mas mostra dificuldades em aceitar comunidades que mantêm convicções diferentes das dominantes. Defende-se a pluralidade enquanto todas as instituições chegarem às mesmas conclusões sobre o corpo, a liberdade, a moral e a religião. Se uma comunidade religiosa conserva critérios próprios, mesmo que modestos, é rapidamente acusada de atraso, obscurantismo ou extremismo. Não se exige apenas que acolha todos. Exige-se que deixe de pedir seja o que for a quem entra.
Acolher não é renunciar à identidade. Respeitar o visitante não é transformar o templo num espaço sem normas. E respeitar uma igreja também implica reconhecer que quem nela entra não é o único sujeito com direitos, expectativas e valores. O bom senso é indispensável. Mas o bom senso deve funcionar nos dois sentidos. Também o visitante pode perguntar onde está, o que aquele lugar significa e se é razoável adaptar-se durante alguns minutos.
Julgo que chamar «lei da burqa» a esse gesto não é uma defesa da liberdade. É a incapacidade de aceitar que, mesmo numa sociedade plural, nem todos os lugares têm de se organizar segundo a vontade de quem acaba de chegar.