14/08/26

Bento XVI no Bundestag: Direito, Razão e Dignidade Humana

Hoje revisitei o discurso de Bento XVI no Bundestag alemão. Quem me conhece sabe que nunca escondi o carinho que tive por este homem de Deus. Mas compreendo que a densidade dos seus escritos não era (e não é) compatível com as vidas aceleradas que o ser humano hoje leva. Acho que é por isso (porque não vejo outro motivo) que tantas vezes escuto: “do Bento XVI eu não gostava muito”. É que não há tempo para nada… e para compreender Bento XVI, é preciso tempo…

Mas voltando a este discurso, pertence ao grupo daqueles que não perdem atualidade. Nele, o papa defendia que a política não pode ter como critério supremo o sucesso, o poder ou sequer a vontade da maioria; antes, deve estar sempre subordinada à justiça, à verdade e à dignidade inviolável da pessoa humana.

Com uma humildade incrível (vale a pena ler), pedindo quase autorização para citar a Bíblia, Bento XVI recuperava a imagem bíblica de Salomão, que, podendo pedir riqueza, poder ou vitória sobre os inimigos, pede a Deus um “coração escutante”, capaz de distinguir o bem do mal. Para quem governa e legisla, esta capacidade de discernimento é essencial. A isto juntava-se a advertência de que nem tudo aquilo que é legal é necessariamente justo, e nem uma maioria pode transformar a injustiça em justiça. A História europeia demonstrou tragicamente o que acontece quando o poder se separa do direito e quando a lei deixa de estar ao serviço da dignidade humana. E foi ainda mais longe, ao recordar que a razão não pode ser reduzida apenas ao que é mensurável, técnico ou funcional, porque uma sociedade verdadeiramente humana precisa de voltar a perguntar pelo bem, pela verdade, pela natureza do homem e pelos fundamentos morais do direito.

E deixa uma expressão particularmente forte: “existe também uma ecologia do homem”. Assim como reconhecemos que a natureza não pode ser manipulada arbitrariamente, também devemos reconhecer que o ser humano possui uma dignidade e uma natureza que não dependem da simples vontade, da conveniência ou das circunstâncias. Por isso, mais que um discurso magnífico, é um apelo à consciência: o direito precisa de algo mais profundo do que o poder para ser legítimo; a democracia precisa de algo mais do que maiorias para ser justa; e a liberdade precisa da verdade para permanecer verdadeiramente humana.

Não mudaria nada, nos dias de hoje, à pergunta final de Bento XVI: se aos legisladores e governantes de hoje fosse concedido fazer um único pedido, o que deveriam pedir? Quero acreditar que pediriam exatamente aquilo que Salomão pediu: um coração escutante, capaz de distinguir o bem do mal, para servir a justiça e a paz.

Um discurso que merece ser lido e sobretudo meditado. Deixo o link.