15/10/26

Tudo o que faz rir (alguns) vem de Deus? E leva-me a Deus?

«Também se pode rir de Deus? Claro que sim, e não se trata de blasfémia. Pode-se rir, tal como se joga e se brinca com as pessoas que amamos. A tradição sapiencial e literária judaica é mestra nisto! É possível fazê-lo, mas sem ofender os sentimentos religiosos dos crentes, sobretudo dos pobres.» (Papa Francisco, Discurso aos Artistas do Mundo Humorístico, 14.06.2024)

Sem querer alongar-me demasiado sobre um assunto que, pelos vistos, até entre padres divide opiniões, sinto necessidade de partilhar uma pequena reflexão. Sem dramas, sem 'excomunhões' e, se possível, sem perdermos o sentido de humor pelo caminho. Enquanto Igreja, particularmente nós, ministros ordenados, não podemos ficar simplesmente pelo «gostei» ou «não gostei», «achei piada» ou «não achei piada». Até considero isso legítimo numa conversa de café, mas parece-me insuficiente quando temos também a responsabilidade de conhecer, transmitir e ajudar a compreender aquilo que a Igreja ensina. E o que nos ensina a Igreja?

27/09/26

O diabo não gosta de água benta

Não consigo acompanhar certas discussões sobre a presença da Igreja (Católica) na sociedade portuguesa sem que uma imagem me venha imediatamente à cabeça. Muitos exorcistas, pelo mundo fora, relatam a agitação do diabo quando uma pessoa possessa é aspergida com água benta. Guardadas, evidentemente, todas as distâncias (antes que alguém se apresse a concluir que estou a diagnosticar possessões nas caixas de comentários das redes sociais ou na opinião pública), às vezes é difícil não pensar nessa imagem quando se observa a reação quase automática que qualquer presença pública da Igreja parece provocar em determinados setores da nossa sociedade. Mas esta é a conclusão que tiro na minha humana fragilidade: o diabo (e os seus seguidores) não gostam mesmo de água benta (da Igreja).

25/09/26

A Fé não precisa ser inventada para ser anunciada ao mundo

Há poucas horas a Igreja beatificou Fulton J. Sheen, o arcebispo norte-americano que levou o Evangelho a milhões de pessoas através da rádio e da televisão. A sua memória litúrgica será celebrada, a partir de agora, a 9 de dezembro, dia da sua morte, em 1979. Fulton Sheen é uma figura particularmente interessante para os tempos que vivemos na Igreja, sobretudo porque nos recorda que é possível anunciar a fé com firmeza, inteligência, sensibilidade e até com uma boa dose de humor, sem cair na tentação de transformar o Evangelho numa peça de museu ou numa doutrina que se adapta às conveniências de cada época.

09/09/26

O direito à dúvida: as teorias da conspiração, as verdades incómodas e as perguntas proibidas

Numa determinada cidade, o rei anunciou uma notícia alarmante: um exército inimigo preparava-se para atacar. Mandou avisar toda a população e a ordem era clara: todos deveriam abandonar as suas casas, reunir-se num determinado ponto fora das muralhas e preparar-se para enfrentar os invasores. Não havia tempo para hesitações. O perigo era demasiado grande. Confiando no rei, o povo obedeceu.

15/08/26

O Domingo que faz a Igreja: Missa, Preceito e Santificação do Dia

O Cristianismo tem uma história de 2000 anos, marcado por um ritmo que continua, hoje, a definir quem somos: o domingo. Se é verdade que é um dia de descanso (dies hominis - dia do homem), o Domingo não é só isso e muito menos uma obrigação a "despachar" antes que a semana recomece. É, na expressão que já os primeiros cristãos usavam, o "dies Domini", o dia que pertence ao Senhor porque n'Ele Cristo ressuscitou (cf. Ap 1,10). Diante disto, o que estamos realmente a celebrar quando vamos à missa de domingo (e até mesmo aos chamados "dias santos")? E porque é que a Igreja, ao longo dos séculos, foi tão cuidadosa a regular como e quando esse dia se vive?

14/08/26

Bento XVI no Bundestag: Direito, Razão e Dignidade Humana

Hoje revisitei o discurso de Bento XVI no Bundestag alemão. Quem me conhece sabe que nunca escondi o carinho que tive por este homem de Deus. Mas compreendo que a densidade dos seus escritos não era (e não é) compatível com as vidas aceleradas que o ser humano hoje leva. Acho que é por isso (porque não vejo outro motivo) que tantas vezes escuto: “do Bento XVI eu não gostava muito”. É que não há tempo para nada… e para compreender Bento XVI, é preciso tempo…

24/07/26

O direito de entrar e o dever de respeitar

Num artigo publicado no Público, Isabel Stilwell relata a indignação que sentiu ao ser informada de que não poderia entrar na Sé Catedral de Silves com os ombros e os joelhos descobertos. A partir desse episódio, constrói uma acusação ampla contra aquilo a que chama «a ala mais conservadora da Igreja Católica», chegando a estabelecer uma proximidade ideológica entre essa parte da Igreja e o radicalismo islâmico. A comparação é desproporcionada, injusta e intelectualmente frágil. Pedir uma determinada forma de apresentação num templo católico não equivale a impor o véu integral, a restringir a liberdade das mulheres ou a defender um modelo teocrático de sociedade. Entre solicitar que alguém cubra os ombros para entrar numa igreja e obrigar uma mulher a ocultar o rosto em todos os espaços públicos existe uma distância tão evidente que só um artigo sensacionalista poderia fingir não a reconhecer.