15/10/26

Tudo o que faz rir (alguns) vem de Deus? E leva-me a Deus?

«Também se pode rir de Deus? Claro que sim, e não se trata de blasfémia. Pode-se rir, tal como se joga e se brinca com as pessoas que amamos. A tradição sapiencial e literária judaica é mestra nisto! É possível fazê-lo, mas sem ofender os sentimentos religiosos dos crentes, sobretudo dos pobres.» (Papa Francisco, Discurso aos Artistas do Mundo Humorístico, 14.06.2024)

Sem querer alongar-me demasiado sobre um assunto que, pelos vistos, até entre padres divide opiniões, sinto necessidade de partilhar uma pequena reflexão. Sem dramas, sem 'excomunhões' e, se possível, sem perdermos o sentido de humor pelo caminho. Enquanto Igreja, particularmente nós, ministros ordenados, não podemos ficar simplesmente pelo «gostei» ou «não gostei», «achei piada» ou «não achei piada». Até considero isso legítimo numa conversa de café, mas parece-me insuficiente quando temos também a responsabilidade de conhecer, transmitir e ajudar a compreender aquilo que a Igreja ensina. E o que nos ensina a Igreja?


O Concílio Vaticano II, na Gaudium et spes, n.º 62, afirma que os artistas devem poder exercer a sua atividade gozando de uma «liberdade ordenada» (ordinata libertate fruentes). Reparemos: é a própria Igreja que pede que os artistas tenham liberdade! Que possam criar, experimentar, questionar, criticar e até provocar. Não lhes pede que façam apenas coisas bonitas, piedosas e que fiquem bem na parede da sacristia. Mas a mesma Igreja que defende essa liberdade recorda também que ela deve ser exercida de forma ordenada. E o que significa isto?


Na tradição filosófica e teológica cristã, ser livre não é simplesmente poder fazer tudo o que nos apetece. A liberdade é também a capacidade de escolher responsavelmente, procurando o bem e respeitando os outros. Por isso, esta «liberdade ordenada» tem duas dimensões inseparáveis: a liberdade de criar, questionar e criticar, e a responsabilidade de o fazer respeitando a verdade, a justiça, a dignidade humana e os outros. Aliás, conjugando este texto com outros dois documentos conciliares (Gaudium et spes, 59, e Inter mirifica, 6), percebemos que a liberdade artística é um bem que deve ser protegido, mas não é um valor absoluto que dispense qualquer responsabilidade moral.


E como podemos, então, avaliar moralmente uma sátira, uma piada ou uma representação artística? Sem pretender transformar isto num exame de Teologia Moral, existem cinco critérios que nos podem ajudar, à luz do ensinamento da Igreja: a finalidade, o objeto, os meios utilizados, o contexto e a proporcionalidade. Por outras palavras, vale a pena perguntar:

  • Pretende-se denunciar uma injustiça ou simplesmente humilhar alguém?
  • Está-se a criticar um comportamento humano ou a ridicularizar diretamente Deus e aquilo que é sagrado?
  • Os meios utilizados respeitam a dignidade humana e os valores morais?
  • O contexto ajuda a compreender a intenção da sátira?
  • A forma escolhida é moralmente justificável, tendo em conta aquilo que se pretende alcançar?

São perguntas que exigem discernimento. E o discernimento, como sabemos, dá um bocadinho mais de trabalho do que carregar no botão «gosto» ou «não gosto». Há ainda um pormenor do texto conciliar que considero particularmente interessante. O Concílio não fala de libertate limitata («liberdade limitada»), mas de ordinata libertate («liberdade ordenada»).


Tem diferença? Sim! A Igreja não está simplesmente a dizer aos artistas que podem ser livres, mas só um bocadinho. Está a reconhecer a liberdade artística como um verdadeiro bem, que deve ser exercido com responsabilidade e dentro de uma ordem de valores. Por isso, a questão é perceber quando é que uma brincadeira continua a ser uma brincadeira e quando é que passa a ser uma falta de respeito por aquilo que é sagrado para os outros. Aqui, como em tantas outras coisas, precisamos de equilíbrio. Nem podemos ver blasfémias em todas as piadas, nem podemos considerar que tudo é aceitável só porque alguém lhe chamou humor. Podemos defender a liberdade dos artistas, denunciar sem hesitações os pecados e crimes cometidos por membros da Igreja e, ao mesmo tempo, defender o respeito devido a Deus e às realidades sagradas. Uma coisa não anula a outra.


A Igreja não nos pede que deixemos de pensar para defender a fé. Pede-nos precisamente o contrário: que a conheçamos, que a compreendamos e que saibamos dar razão daquilo em que acreditamos. E, já agora, que não percamos o sentido de humor. Mas também não percamos o sentido do sagrado.