29/05/26

Nem xenofobia nem ingenuidade: pensar a imigração em Portugal

Parece que Portugal vai vivendo por ciclos históricos resumidos em três palavras. Como recordou J. Sardica na sua intervenção igreja de São Nicolau em Lisboa, houve os três "D" dos anos 70: descolonização, democratização e desenvolvimento. Vieram depois os três "C" dos anos 80 e 90: casa, comida e consumo. Mais tarde apareceram os três novos "D" dos anos 2000 e 2010: défice, dívida e desemprego. Agora entrámos nos três "I": imigração, integração e identidade.

A interligação destes três temas tornou-se uma das questões mais difíceis da sociedade portuguesa contemporânea. É um daqueles assuntos em que quase toda a gente parece obrigada a escolher a trincheira antes sequer de pensar. Quem tenta introduzir nuance é rapidamente suspeito de alguma coisa: xenofobia , cosmopolitismo ingénuo, populismo, elitismo, radicalismo, fraqueza moral. O espaço para uma reflexão séria e equilibrada parece diminuir à medida que o debate público aumenta de volume. Mas por mais que queiram bloquear uma reflexão séria sobre o assunto, esta realidade existe independentemente das palavras de ordem.

Os números da imigração em Portugal mudaram profundamente em poucos anos. Segundo os dados da AIMA, havia cerca de 421 mil estrangeiros em Portugal em 2017. Em 2018 eram 480 mil. Em 2019 passaram para 592 mil. Em 2020 eram 666 mil. Em 2021 chegaram aos 714 mil. Em 2022 aproximaram-se do milhão. Em 2023 ultrapassaram os 1,3 milhões. No final de 2024 eram já mais de 1,5 milhões de cidadãos estrangeiros residentes no país.

A meu ver, isto não é uma “substituição populacional”, nem uma invasão apocalíptica, como alguns repetem quase religiosamente, muitas vezes com uma capa de cristãos defensores dos mais altos valores evangélicos. Mas também não é uma alteração pequena ou irrelevante. Em poucos anos, Portugal mudou profundamente. E só um fanatismo ideológico não consegue reconhecer que mudanças desta dimensão têm consequências sociais, económicas, culturais e até psicológicas. 

A imigração não é, em si mesma, um problema. Muitas vezes é até uma necessidade. Portugal envelhece rapidamente, perde população jovem, enfrenta falta de mão de obra em vários setores e depende cada vez mais de trabalhadores estrangeiros para manter partes inteiras da economia em funcionamento. Basta olhar para a agricultura, construção civil, restauração, turismo ou cuidados a idosos. Mas uma coisa é reconhecer a necessidade da imigração. Outra, completamente diferente, é fingir que integração acontece automaticamente. Não! Não acontece!

Nenhuma sociedade consegue absorver, em tão pouco tempo, centenas de milhares de pessoas vindas de contextos culturais, religiosos e linguísticos diferentes sem tensões, dificuldades e desequilíbrios. Isso não faz dos portugueses racistas. Faz deles humanos. E por mais que uns tentem negar estas dificuldades, isso não elimina os problemas, apenas entrega o debate aos extremos.

Há bairros sob pressão, serviços públicos saturados, escolas com dificuldades de integração linguística, aumento da procura habitacional num país já esmagado por uma crise de habitação gravíssima, redes de exploração laboral que usam imigrantes quase como mão de obra descartável (novas formas de escravatura), máfias de tráfico humano, situações de marginalidade e uma crescente sensação de insegurança em vários contextos. Tudo isto existe e negá-lo tornou-se, infelizmente, um hábito político e mediático.

Ao mesmo tempo, também existe outra realidade que muitos preferem ignorar: milhares de imigrantes trabalham honestamente, sustentam setores inteiros da economia portuguesa, fazem descontos, criam famílias, educam filhos, aprendem a língua e procuram apenas aquilo que quase todos procurariam se tivessem nas mesmas circunstâncias que os levou a emigrar: segurança, estabilidade e futuro. Ao deixarmos de olhar para pessoas concretas e passamos a olhar apenas para categorias abstratas, então começa a haver um problema: "os imigrantes", "os portugueses", "os estrangeiros", "os nacionalistas", "os etc.". Começa um debate tribal sem qualquer humanidade que o sustente.

Como se deve situar um cristão no meio disto? O Papa Francisco recordou, na mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2024, que somos todos, no fundo, estrangeiros em todas as pátrias, porque a única pátria definitiva é a celeste. A condição peregrina faz parte da própria identidade cristã. E o Papa Leão XIV retomou a mesma ideia em 2025, ao comparar a coragem do migrante contemporâneo (muitas vezes disposto a arriscar a própria vida para procurar outra) com a longa peregrinação do povo de Israel no deserto. A Igreja nunca viu a humanidade como instalada definitivamente em parte alguma. Somos todos "peregrinos". Mas precisamente por isso, a visão cristã também não pode reduzir-se a um sentimentalismo abstrato. Ser cristão implica ser defensor da verdade porque a verdadeira Caridade (já o disse Bento XVI) reclama/exige verdade. E a verdade obriga a reconhecer que uma imigração desordenada, sem critérios, sem planeamento e sem verdadeira integração, acaba por gerar sofrimento para todos: para quem chega e para quem recebe.

Então, penso que se pode concluir que "integrar" não é apenas legalizar papéis, mas é muito mais (e muito mais difícil) do que isso: é aprender uma língua, entrar numa cultura, compreender costumes, regras, referências históricas e formas de convivência; é aceitar que quem chega também tem deveres, não apenas direitos; e é igualmente perceber que um país tem o direito legítimo de preservar a sua continuidade histórica, cultural e civilizacional sem que isso constitua automaticamente ódio ao estrangeiro.

Durante muitos anos, Portugal habituou-se a pensar-se como um país de emigrantes. E fomos, na verdade, porque milhões de portugueses partiram para França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Estados Unidos ou Canadá. Recordar esta nossa história deveríanos levar a ter uma outra maturidade quando se trata de discutir imigração. Sou totalmente contra qualquer histeria ideológica. Acredito que é possível defender a dignidade humana dos migrantes e, simultaneamente, reconhecer limites, dificuldades e problemas reais. É possível rejeitar discursos de ódio sem cair na ingenuidade política, mas também é possível defender fronteiras sem deixar de defender pessoas. Ou seja, é possível acolher sem destruir os equilíbrios sociais necessários para que o próprio acolhimento seja sustentável. O problema é que hoje quase ninguém quer pensar, porque quer apenas pertencer a um lado. E enquanto andamos entretidos a escolher "o nossos lado", Portugal muda diante dos nossos olhos, sem que falemos dessa mudança com honestidade, serenidade e verdade.