09/09/26

O direito à dúvida: as teorias da conspiração, as verdades incómodas e as perguntas proibidas

Numa determinada cidade, o rei anunciou uma notícia alarmante: um exército inimigo preparava-se para atacar. Mandou avisar toda a população e a ordem era clara: todos deveriam abandonar as suas casas, reunir-se num determinado ponto fora das muralhas e preparar-se para enfrentar os invasores. Não havia tempo para hesitações. O perigo era demasiado grande. Confiando no rei, o povo obedeceu.

Homens e mulheres deixaram as suas casas e dirigiram-se para o local indicado. Esperaram. Prepararam-se. Tinham sido convencidos de que aquela era a única maneira de proteger a cidade e as suas próprias vidas.

Passado algum tempo, porém, chegou uma nova informação: os invasores teriam mudado inesperadamente de direção. Enquanto toda a população permanecia concentrada num dos lados da cidade, o inimigo entrara pelo lado oposto. Quando os habitantes regressaram, encontraram as casas assaltadas e muitos dos seus bens tinham desaparecido.

É apenas uma história. Mas foi o caminho que encontrei para levantar uma questão: seria legítimo que alguém daquele povo pensasse que talvez nunca tivesse existido um exército invasor? E se a história do ataque tivesse sido criada pelo próprio rei para convencer a população a abandonar voluntariamente as suas casas? E se aqueles que entraram na cidade tivessem agido com o seu conhecimento? E se tudo tivesse sido preparado para que os bens pudessem ser roubados sem resistência?

Não estou a dizer que foi isso que aconteceu. Na história que inventei, nem sequer existe uma resposta. É precisamente esse o ponto. Estas são as perguntas que facilmente receberiam hoje o rótulo de «teoria da conspiração». Numa sociedade verdadeiramente livre, em princípio, não deveria existir qualquer problema em formular hipóteses, por mais incómodas que fossem. Uma hipótese não é um facto, nem uma suspeita é uma prova. Mas também uma pergunta não é uma mentira.

Penso que começámos a confundir o combate à desinformação com a tentação de determinar aquilo que pode ou não pode ser perguntado. A isto eu chamaria de «ditadura do silêncio», não necessariamente um regime que proíbe formalmente alguém de falar, mas um ambiente cultural no qual quem se afasta da narrativa dominante é imediatamente classificado, desacreditado ou remetido para as margens da discussão.

A nossa História deve ajudar-nos a ser mais prudentes. Durante décadas, por exemplo, uma afirmação como «os serviços secretos estão a fazer experiências secretas com drogas em seres humanos para estudar formas de modificar o comportamento» pareceria saída de uma sala de cinema. Porém, hoje sabemos que existiu realmente o MKULTRA, um programa da CIA dedicado à investigação de técnicas de modificação comportamental. Incluiu experiências com LSD e outras substâncias, algumas realizadas sem consentimento adequado dos participantes. Em 1977, o próprio Senado dos Estados Unidos realizou uma audiência sobre o assunto: Project MKULTRA, the CIA’s Program of Research in Behavioral Modification. Coisa de filme? Não! Aconteceu.

Outro exemplo. Durante anos, afirmar que o Estado recolhia secretamente dados relativos às comunicações de milhões de cidadãos americanos poderia facilmente despertar acusações de paranoia. Em 2013, porém, as revelações de Edward Snowden expuseram a existência de programas secretos de vigilância da NSA. Posteriormente, as próprias autoridades norte-americanas reconheceram programas de recolha em larga escala de metadados telefónicos.

Também a história da indústria do tabaco deveria ensinar-nos alguma coisa. Durante décadas, críticos das grandes tabaqueiras acusaram-nas de conhecerem os perigos e o potencial aditivo dos cigarros enquanto publicamente os minimizavam. Alguns processos judiciais e documentação interna acabariam por revelar práticas de ocultação, manipulação da nicotina e estratégias destinadas a criar dúvidas acerca dos riscos do tabaco. Hoje, ninguém ficará surpreendido ao ler que fumar faz mal à saúde. Mas houve um tempo em que interesses económicos poderosíssimos tinham todas as razões para que determinadas perguntas não fossem feitas.

Talvez ainda mais perturbador seja o caso do Tuskegee Syphilis Study. Entre 1932 e 1972, centenas de homens negros participaram num estudo conduzido pelo serviço de saúde pública norte-americano sem verdadeiro consentimento informado. Quando a penicilina se tornou o tratamento recomendado para a sífilis, não foi devidamente disponibilizada aos participantes infetados, porque os investigadores pretendiam continuar a observar a evolução natural da doença. O estudo terminou apenas em 1972, depois de se tornar público. Em 1997, o Presidente Bill Clinton apresentou formalmente desculpas em nome dos Estados Unidos. Se alguém tivesse descrito antecipadamente uma história destas («o governo está a observar pessoas doentes e não lhes dá o tratamento disponível para poder continuar a estudá-las») quantos acreditariam?

Chegamos, inevitavelmente, à COVID-19. Poucos assuntos dos últimos anos dividiram tanto as sociedades. De um lado, circularam verdadeiras falsidades e teorias sem qualquer fundamento científico. Algumas atingiram níveis absurdos e isso deve ser dito claramente. Mas é igualmente necessário reconhecer o outro lado da questão. Algumas preocupações que foram precipitadamente confundidas com discurso «antivacinas» acabaram por corresponder a efeitos ou limitações posteriormente reconhecidos pelas próprias autoridades sanitárias.

As vacinas da mRNA podem, em casos raros, provocar miocardite e pericardite. Algumas vacinas de vetor viral foram associadas a casos muito raros de trombose com trombocitopenia. Uma pessoa vacinada pode ser infetada e transmitir o SARS-CoV-2. Foram reconhecidas determinadas alterações menstruais após a vacinação. E certas vacinas foram associadas, muito raramente, à síndrome de Guillain-Barré. Nada disto significa que «os antivacinas tinham razão». Muito menos significa que todas as suspeitas que circularam durante a pandemia tenham sido confirmadas. Não foram. E seria intelectualmente desonesto colocar no mesmo plano um efeito adverso raro posteriormente reconhecido e afirmações extraordinárias sobre chips, alterações deliberadas do ADN ou planos secretos de redução da população. Mas também seria intelectualmente desonesto fazer de conta que nada mudou à medida que os dados se acumularam.

A ciência funciona precisamente assim: observa, formula hipóteses, testa, corrige e, quando necessário, muda de posição. Eu acredito que o erro não estava em não sabermos tudo em 2020 ou 2021. Era impossível sabermos. Acredito, no entanto, que o erro começou quando transformámos aquilo que sabemos num determinado momento numa verdade que já não pode ser interrogada. A autoridade científica merece respeito, mas não é infalível. A autoridade política merece respeito, mas também não é infalível. A comunicação social desempenha uma função indispensável numa sociedade livre, e também ela não é infalível. E o cidadão que pergunta não é, só por perguntar, inimigo da ciência, da democracia ou da sociedade.

Resolvi, hoje, escrever sobre esta possível «ditadura do silêncio» porque o tempo vai revelando que, afinal, os nossos antepassados (ou até nós próprios) poderiam não estar tão longe da verdade quando ousavam fazer determinadas perguntas. Só no dia de hoje deparei-me com três notícias que me fizeram pensar nisto.

Na Renascença: «11 de Setembro. Documentos provam que autoridades sabiam que ar de Nova Iorque estava contaminado». Foram agora divulgadas cerca de 170 mil páginas de documentos que indicam que responsáveis da cidade sabiam da presença de contaminantes no ar depois do colapso das Torres Gémeas, numa altura em que cidadãos e socorristas receberam garantias de que era seguro regressar àquela zona.

Na RTP: «Investigação revela que televisões LG gravam áudio com o ecrã desligado». Segundo a investigação noticiada, estes aparelhos conseguem mapear dispositivos existentes na rede local e captar áudio através do microfone mesmo quando o ecrã está desligado. 

E, no Expresso: «Investigador da Anthropic e da OpenAI bate com a porta e deixa aviso: “A IA pode matar-nos a todos até ao fim da década”». Jacob Coxon, depois de trabalhar nas duas empresas que estão na linha da frente do desenvolvimento da Inteligência Artificial, abandonou a Anthropic deixando um aviso inquietante sobre a corrida à superinteligência e os riscos que, na sua opinião, estamos dispostos a correr.

Três notícias. Num só dia.

Não pretendo concluir daqui que devemos desconfiar de tudo, pois uma sociedade em que ninguém acredita em ninguém torna-se impossível. Mas o extremo contrário também é perigoso: uma sociedade em que determinadas instituições, governos, empresas ou consensos não podem ser interrogados deixa de ser verdadeiramente livre. Entre a credulidade e a paranoia existe uma virtude antiga que certamente está em desuso: a prudência. E a prudência obriga-nos tanto a não acreditar em tudo o que aparece nas redes sociais como a não aceitar como indiscutível tudo aquilo que é apresentado como «verdade oficial».

Não tenho dúvidas de que o mundo anda perdido. E mais perdido ficará se não voltar a reconhecer o Criador, de quem tudo procede. O drama do nosso tempo não está apenas na tecnologia que construímos, nos sistemas políticos que organizamos ou nos instrumentos de poder que colocamos nas mãos de alguns. Está na ideia de que podemos construir tudo isto sem uma referência que transcenda o próprio homem. É a antiga tentação de Babel: construir uma torre que chegue ao céu pelas nossas próprias forças, como nos recordou o Papa Leão XIV.

A alternativa cristã não é o medo de tudo e de todos, mas uma outra conceção de progresso. A humanidade não pode querer ocupar o lugar de Deus mas deve, antes, reconhecer a dignidade que recebeu de Deus e colocar a inteligência, a ciência, a política e a técnica ao serviço dessa mesma dignidade. Não duvido que se alguma coisa destruir a humanidade, provavelmente não será a Inteligência Artificial, nem uma vacina, nem os homens e mulheres que acumulam poder, porque esses serão apenas e somente ‘instrumentos’. E os instrumentos podem servir o bem ou o mal. O verdadeiro perigo para a Humanidade continuará a ser a própria Humanidade quando, convencida de que já não precisa de Deus, deixa de reconhecer qualquer verdade acima do seu próprio poder.