Falar da relação entre a Igreja Católica e o socialismo ou o comunismo nem sempre é fácil, já que as palavras são frequentemente usadas com significados diferentes e, muitas vezes, carregadas de forte conteúdo emocional. Palavras como «esquerda», «direita», «socialismo», «capitalismo», «marxismo» ou «justiça social» são utilizados no debate público de formas tão variadas que facilmente se geram confusões. Por isso, antes de mais, importa recordar que a Igreja não se identifica com qualquer partido político nem com qualquer sistema ideológico. A sua missão não é propor um programa partidário, mas anunciar o Evangelho, formar as consciências e iluminar a vida social à luz da fé.
Ao longo dos últimos dois séculos, porém, o Magistério da Igreja foi muito claro num ponto: não é possível conciliar a fé cristã com o marxismo entendido como visão global do homem, da sociedade e da história. A razão principal não é política, mas antropológica e espiritual, já que marxismo clássico assenta numa conceção materialista da realidade. Segundo essa perspetiva, o homem é explicado fundamentalmente pelas condições económicas e pelas relações de produção. A religião é frequentemente interpretada como um fenómeno de alienação ou como um instrumento ao serviço de determinados interesses históricos. A história é vista sobretudo como resultado da luta de classes.
A visão cristã é profundamente diferente. Para a Igreja, cada pessoa humana possui uma dignidade única porque foi criada à imagem de Deus. O homem não se reduz à sua condição económica nem às estruturas sociais em que vive, mas possui liberdade, responsabilidade moral e uma vocação transcendente. A história humana não é governada por um determinismo inevitável, mas permanece aberta à liberdade, à graça e à ação de Deus.
É neste contexto que devem ser entendidas as várias condenações do comunismo e do marxismo feitas pelos Papas. Desde o século XIX até aos nossos dias, o Magistério rejeitou repetidamente as correntes ideológicas que negam Deus, reduzem a pessoa humana à matéria ou subordinam a dignidade humana aos objetivos da revolução política. Ao mesmo tempo, seria um erro concluir que a Igreja defende um capitalismo sem limites ou uma visão individualista da sociedade. A DSI critica igualmente as injustiças económicas, a exploração dos trabalhadores, a concentração excessiva da riqueza e a absolutização do mercado.
Desde a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII até aos ensinamentos mais recentes dos Papas, a Igreja tem insistido na necessidade de um salário justo, da proteção dos trabalhadores, da solidariedade social, da promoção dos pobres, do acesso à habitação, da defesa da família e da procura do bem comum. Por isso, muitas das preocupações que hoje encontramos em diversos programas políticos, como a luta contra a pobreza, a defesa dos mais frágeis, a promoção da justiça social ou a proteção dos trabalhadores, não são estranhas ao pensamento cristão. Pelo contrário, fazem parte integrante da tradição social da Igreja. Isto significa que a questão decisiva não está apenas nas medidas concretas propostas para resolver os problemas sociais mas está, sobretudo, na visão da pessoa humana que lhes serve de fundamento. Quando a preocupação pelos pobres nasce do reconhecimento da dignidade de cada ser humano criado por Deus, encontra-se em plena sintonia com o Evangelho, mas quando é integrada numa visão materialista que exclui Deus e reduz o homem à sua dimensão económica, surge uma incompatibilidade de fundo.
Também por isso a Igreja nunca ensinou que votar num determinado partido seja, por si só, pecado. Os católicos podem chegar legitimamente a opções políticas diferentes na procura do bem comum. A vida política pertence sobretudo à vocação própria dos leigos, chamados a agir na sociedade segundo a sua consciência cristã bem formada. Entre os militantes, autarcas e eleitores dos mais diversos partidos encontram-se pessoas honestas, dedicadas ao serviço público e verdadeiramente preocupadas com os problemas concretos das populações. A Igreja reconhece e valoriza todo o esforço sincero em favor da justiça, da solidariedade e da promoção humana.
Contudo, continua a recordar que nenhuma ideologia pode ocupar o lugar da fé. Nenhum sistema político consegue oferecer a salvação do homem. Nem o Estado, nem o mercado, nem a revolução podem responder às aspirações mais profundas do coração humano.
A Doutrina Social da Igreja procura manter este equilíbrio exigente. Rejeita tanto as ideologias que negam Deus e a dignidade transcendente da pessoa como as visões económicas que ignoram os pobres ou sacrificam o homem aos interesses do lucro.
No centro permanece sempre a pessoa humana. O homem não existe para servir sistemas económicos, partidos ou ideologias. São as estruturas sociais e políticas que devem estar ao serviço da pessoa, da família e do bem comum.
Por isso, a Igreja continua a afirmar simultaneamente duas verdades inseparáveis: a justiça social é uma exigência do Evangelho e o marxismo é incompatível com a visão cristã do homem. Longe de serem afirmações contraditórias, ambas nascem da mesma convicção fundamental: cada pessoa possui uma dignidade inviolável porque é amada por Deus e chamada à comunhão com Ele.