Esta noite pascal está totalmente orientada para a Páscoa de Jesus Cristo e para os Sacramentos da Iniciação Cristã. Foi à luz do Círio Pascal que todos nós escutámos a história da nossa salvação, como luz de Deus para todos os homens. Mas, antes de nos determos nesta história de luz crescente que Deus foi escrevendo com o seu povo e connosco, vamos recuar um pouco e olhar ainda para as trevas. Não queria iniciar a minha partilha sem uma referência ao dia que hoje vivemos. O Sábado Santo é o dia em que contemplamos Jesus depositado no sepulcro.
A sepultura e a descida aos infernos
Há dois mil anos, foi Sábado em Jerusalém. Jesus tinha sido sepultado e Jerusalém voltou à sua normalidade. Nada parecia ter mudado na história, pelo menos aparentemente. Há um silêncio desconcertante, uma estranha indiferença. Penso que, no nosso caminho de seguimento de Jesus, existem muitos «Sábados Santos», tanto a nível pessoal como comunitário. Passamos por contínuas mortes, noites escuras, crises, silêncios carregados de tristeza, falta de esperança, dúvidas de fé, fracassos e traumas. Diria até mais: penso que toda a humanidade vive um grande Sábado Santo. Há uma espera angustiada dos povos. Ansiamos por tempos melhores, mas experimentamos um sentimento de impotência ao ver que esses tempos tardam em chegar.
Onde encontrar, então, a razão, o segredo e o sentido deste dia que parece morto? Certamente neste facto: se o Crucificado não tivesse descido até aos infernos da vida, em que poderiam apoiar-se os homens e as mulheres que ali vivem? Quem seria o seu companheiro, amigo e irmão? De quem poderiam sentir uma presença consoladora? A Igreja, desde o princípio, viu a descida entre os mortos como um momento essencial da Redenção. No Sábado Santo, recorda este descer às profundezas da terra e da humanidade. Lá onde o ser humano chegou ao extremo, onde se encontra excluído de toda a comunicação e comunhão, onde já nada pode fazer, aí Jesus toma-o pela mão e ressuscita com ele para a vida.
Jesus acolheu tudo o que é humano e, dessa forma, tudo redimiu. Subiu ao Céu porque antes desceu às profundezas da terra. A descida aos infernos é também a imagem da descida de Jesus às regiões mais sombrias da nossa existência. Encontramo-lo presente nos nossos infernos interiores. As profundezas do nosso ser iluminam-se e tudo aquilo que foi reprimido, recalcado ou ferido é agora tocado e assumido por Cristo, despertando-nos para a vida.
É preciso descer, com Jesus, ao túmulo da nossa interioridade; atravessar os espaços e as dimensões da nossa vida que ainda não estão plenamente integrados. Só quem desce às profundezas de si mesmo consegue descobrir potencialidades de vida que permaneciam escondidas. É preciso morrer para o ego, descer aos infernos interiores e sociais, para que a vida possa expandir-se em novas direções.
O sepulcro representa a passagem entre o antigo e o novo. Reparemos que Jesus foi colocado num sepulcro novo. Quando este foi fechado com a pedra, ao entardecer da Sexta-feira Santa, encerrava-se um ciclo. Quando se abre, na madrugada de Domingo, inaugura-se uma nova criação. Os sinais estão ali, no ventre aberto da terra. Podem permanecer mudos para quem vive preso ao passado, mas podem também tornar-se a porta de entrada para uma vida completamente nova.
A Palavra desta Vigília
Deus, através desta longa escuta da Sagrada Escritura, ajuda-nos a percorrer uma história de amor que começou na criação do mundo e culmina na Ressurreição de Jesus.
Na criação, Deus revela-nos que nos ama desde sempre. Criou o mundo para nós e criou-nos para partilhar connosco a sua própria vida. Na história de Isaac contemplamos a generosidade de Abraão, disposto a oferecer o seu filho único por amor a Deus. Na travessia do Mar Vermelho percebemos que é Deus quem liberta o seu povo. Esse mesmo Deus continua hoje a libertar-nos pelas águas do Batismo, salvando-nos da escravidão do pecado. A imagem da esposa repudiada recorda-nos que qualquer um de nós pode afastar-se de Deus, mas também que Deus nunca deixa de permanecer fiel. Outro profeta mostra-nos que Deus coloca à nossa disposição todos os meios necessários para permanecermos fiéis à sua Aliança e convida-nos continuamente para o banquete da intimidade com Ele.
Quando aceitamos esse convite, encontramos a verdadeira sabedoria. Uma sabedoria que se manifesta plenamente em Cristo morto e ressuscitado. Aquilo que aos olhos humanos parece fraqueza e derrota revela-se, afinal, como o verdadeiro poder de Deus. Finalmente, o profeta Ezequiel anuncia um tempo novo, em que Deus substituirá o coração de pedra por um coração de carne. Em Cristo ressuscitado esta promessa torna-se realidade: Ele transforma-nos por dentro e oferece-nos uma vida nova.
Os Sacramentos da Iniciação Cristã
Pelo Batismo, todos nós participamos neste mistério da morte e da ressurreição de Cristo. Como dizia São Paulo: «Fomos sepultados com Cristo pelo Batismo, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, também nós vivamos uma vida nova.» É por isso que, nesta noite, ao celebrarmos a Ressurreição, a Igreja nos convida também a renovar as promessas do nosso Batismo e a reavivar a fé nessa vida nova que recebemos.
O Evangelho recordava-nos ainda que também a fé de Maria Madalena precisou de crescer. Foi quando regressou junto da comunidade dos discípulos que alcançou a certeza de que Jesus estava realmente vivo.
Uma pequena história
Permitam-me terminar com uma pequena história. Imaginemos que fazemos parte de uma equipa de futebol. Não somos muito bons, mas decidimos participar num torneio oficial. Contra todas as expectativas, chegamos à final. O problema é que a equipa adversária é muito superior e sabemos que dificilmente conseguiremos vencer. Ainda assim, treinamos com entusiasmo.
No dia da final, chegamos cedo ao estádio. Faltam dez minutos para o início do jogo e a outra equipa ainda não apareceu. O árbitro avisa que, se não comparecer a tempo, encerrará a partida e seremos declarados vencedores. Começamos a rezar para que eles não cheguem.
À hora marcada aparecem apenas dois jogadores. O árbitro explica que não podem jogar porque a equipa está incompleta. Assina a ata e declara-nos campeões. Enquanto festejamos, chega o resto da equipa e diz: — Já que viemos, vamos jogar.
Nós respondemos: — Sim... mas nós já ganhámos.
Eles insistem e começamos o jogo.
Curiosamente, jogamos com enorme tranquilidade. Já não temos medo de perder. Não nos preocupamos com os golos sofridos, porque sabemos que a vitória já nos pertence. E, precisamente por isso, acabamos por fazer um dos melhores jogos das nossas vidas.
Meus irmãos, esta é a grande mensagem da Páscoa. Com Jesus, já ganhámos. Não temos de conquistar o Céu pelas nossas próprias forças. Cristo já venceu por nós. Agora resta-nos viver esta vida com alegria, liberdade e confiança. Quem vive assim deixa de olhar para os outros como adversários. Deixa de criticar, julgar, humilhar ou destruir. Procura simplesmente amar, servir e fazer o bem. Não é esta a primeira grande lei do Evangelho? Amar a Deus e ao próximo.
Vivamos, então, com leveza, confiança e esperança. Não porque sejamos perfeitos, mas porque Cristo já alcançou a vitória. Somos vencedores, não pelos nossos méritos, mas pelos méritos de Cristo. Hoje é Páscoa. Hoje é vitória. Hoje pode começar uma vida nova para todos.x\x\